Nem todo mundo gosta de viver: Sabrina Gevaerd fala sobre ilustras, zines e minas na arte

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Acho massa pra cacete quando vejo minas lutando (e ganhando) o seu espaço em territórios indiscutivelmente e culturalmente dominados pelo sexo masculino, como é o universo dos zines. É o caso de Sabrina Gevaerd, quase designer gráfica, designer de moda por formação, diretora de arte para moda certificada pela Saint Martins e, agora, ilustradora que se auto-publica.

Sabrina Gevaerd, 26 anos, capitaneia o Estúdio Pagu, projeto em que cria e divulga as suas ilustrações e zines. Atualmente ela, que morou por 2 anos e 3 meses em Curitiba e que voltou há algumas semanas para Santa Catarina, publicou a sua primeira publicação independente, intitulada Nem todo mundo gosta de viver, e já está movimentando horrores o meio de zines em SC.

sabrina-gevaerd-zine-wefashionyou-2Capa do zine Nem todo mundo gosta de viver

Em entrevista para o We Fashion You, Sabrina conta que está com vários projetos em mente e com gás total para realizá-los. Entre eles, a ideia de uma feira de publicações independentes em Balneário Camboriú. Ela também conversou com a gente sobre qual é o sentimento que envolve o ato de se auto-publicar, como começou a desenhar e como enxerga o espaço e a divulgação do trabalho de minas zineiras.

We Fashion You: Sabrina, primeiramente queremos dizer que compramos o teu zine “Nem todo mundo gosta de viver” e já somos fãs dos teus traços. Ficamos muito felizes em ter o teu trabalho estampando uma matéria do site.
Sabrina Gevaerd: E eu sou fã do trabalho de vocês! Fiquei super feliz com o convite!

 WFY: Bom, vamos começar! Você é formada em Design de Moda pela Universidade do Vale do Itajaí. Há alguma conexão entre esta graduação e o trabalho que você desenvolve como ilustradora e zineira?
Sabrina: Acredito que tudo que já participei nessa vida tem um pouco de influência no meu trabalho. Eu desenho desde pequena, minha mãe é professora de artes (quão cliché eu sou, né?) e lá nos meus 6 anos era meu sonho ser desenhista. Foi na faculdade que eu descobri que isso era uma possibilidade real, quando comecei a ilustrar estamparia para várias marcas do Brasil. A parte zineira é uma herança da minha adolescência revoltada punkzinha, que ainda vive dentro de mim.

WFY: Com certeza a sua experiência com design gráfico ajuda na hora de se autopublicar. Você acha importante ter conhecimento nesta área para lançar zines?
Sabrina: Ajuda em partes por eu já conhecer alguns materiais, processos e editoração. Porém, a parte mais gostosa de se auto publicar é testar novas superfícies, novas impressões e encadernações. Eu tenho uma tendência a gostar do que é mais lo-fi, que fica fora do ensino formal. O melhor jeito de aprender é fazer, errar e sentir na mão o trabalho nascer!

 WFY: Os teus traços extremamente delicados e precisos revelam mulheres fortes, algumas vezes agressivas, em outros momentos sensuais e fofas, é verdade, mas sempre fortes. Porque essa temática é recorrente em seus desenhos?
Sabrina: Mulher é a coisa mais maravilhosa do mundo. Exploro no meu traço minha paixão por ser mina feminista, com todas as facetas que me dou o direito. É uma auto exploração que acaba virando reflexo do meu mundo.

 WFY: As suas ilustras são direcionadas para o público feminino? Qual a principal mensagem que você procura transmitir com elas?
Sabrina: São direcionadas pra quem se interessar, independente do gênero. Minha temática dificilmente sairá desse universo feminino mágico, tudo que coloco no papel é um pouco do que existe em mim; que no caso é colocar as mina num pedestal e empoderar todas. Somos todas maravilhosas!

 WFY: Falando em mulheres, como você enxerga atualmente a presença e a divulgação dos trabalhos de minas no universo dos zines? Existem dificuldades?
Sabrina: Existem dificuldades sim, e são muitas, mas mesmo assim tem muita mina no rolê! E cabe sempre mais – ainda vejo menos gurias do que gostaria. Sinto que na sociedade atual as mulheres precisam se firmar de uma forma muito mais intensa que os homens, lidar com repercussões do seu trabalho que muitas vezes podem ser violentas. Às vezes parece que a mulher precisa gritar para ser ouvida, quando o homem só precisa falar baixinho. Espero que o público feminino entre em contato com esse universo das zines e percebam que pode ser uma plataforma muito foda pra gente mostrar nossa voz, nosso traço e nossa existência. E se alguém quiser uma ajuda, tô sempre aberta para ampliar minha girl gang.

 WFY: Você criou recentemente o Estúdio Pagu, que tem divulgado o seu zine e os seus desenhos. Qual é exatamente a proposta do Estúdio?
Sabrina: Eu larguei minha vida de diretora de arte freela em Curitiba pra viver desenhando. O estúdio é novinho, nem coloquei o site no ar ainda. É voltado pra ilustração, tanto autoral quanto design de superfícies pra indústria da moda.

WFY: Sabemos que você tem o projeto de uma feira de publicações independentes em Balneário Camboriú. Para quando podemos agendar a viagem pra participar do evento?
Sabrina: Não tenho ainda um dia exato, mas deve acontecer no final de junho. Quero juntar todo mundo nesse bonde da auto publicação.

 WFY: Quais os últimos zines que você consumiu e quais os que você indica para os nossos leitores?
Sabrina: Vou indicar 3 gurias que me inspiram muito: Estelle Flores , PAC Calory e Insomnia. Foi um zine da Insomnia que me fez começar a fazer os meus, e foi a melhor descoberta dos últimos anos.

 WFY: Para terminar, qual a dica que você dá para quem quer começar a se auto-publicar?
Sabrina: Só comece! Sem medo, sem nóia, sem achar que tá ruim. A única pessoa que precisa validar nosso trabalho somos nós mesmos. E olha que eu demorei alguns anos pra aprender isso sozinha. Nosso ponto de vista é único e precioso – a gente carrega e traduz a nossa vida na hora que começa a produzir. Todo formato, traço e letra é válido!

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